José Sarney
O modelo de gestão de Sarney era delegado, porém com uma equipe que não era sua, já que foi herdada do presidente eleito, Tancredo Neves. Foi um período de transição entre a ditadura e a democracia, que foi facilitada pelo perfil conciliador do presidente e sua postura pragmática na relação com um Congresso que lhe era hostil. A despeito de terem reduzido um ano de seu mandato, seu capital político de negociador permitiu que a Constituinte transcorresse na normalidade, com a entrega da Constituição Cidadã, com a conclusão de sua gestão e, numa demonstração de civilidade, com a transmissão da faixa para seu sucessor, a pessoa que lhe fora mais hostil durante todo o mandato.
Fernando Collor
O modelo de gestão de Collor era hierarquizado, o que era compatível com seu estilo centralizador, porém sua postura impulsiva e voluntarista, combinada com seu capital político carismático, tornava sua gestão muito instável. Sem base parlamentar, pouco avançou em sua agenda modernizadora. Não deixou nenhum legado, salvo o discurso da modernização da economia.
Itamar Franco
Tal como Sarney, o modelo de gestão de Itamar foi delegado, porém desarticulado. Seu estilo coordenador, entretanto, corrigiu parte da desarticulação. Como tinha a autoridade moral como capital político e adotava uma postura pragmática, foi eficaz em implementar suas diretrizes de governo, que tiveram como base a estabilidade econômica e o Plano Real.
Fernando Henrique Cardoso
FHC adotou um modelo de gestão competitiva, no qual estimulava os ministros a serem criativos, mas agia como moderador, controlando eventuais disputas no interior do governo. Com sua autoridade moral de intelectual e postura pragmática, conseguiu aprovar importantes reformas no Congresso. A reeleição foi o elemento mais perturbador de sua gestão, porém conseguiu deixar um legado importante em termos de controle do gasto público.
Luiz Inácio Lula da Silva
Lula fez uma gestão colegiada, dando liberdade aos ministros para formular e implementar a agenda governamental, e promoveu a coordenação do governo, calibrando as propostas de sua equipe e da sociedade, organizada em torno de conselhos, como o CDES. Detentor de grande carisma, foi pragmático na relação com o Congresso e deixou um grande legado em termos de redução da pobreza e combate à desigualdade, com a aprovação de várias políticas públicas de inclusão social. Em seu terceiro mandato já poderá deixar como legado a estabilidade institucional, após uma tentativa de golpe nos primeiros oito dias de seu novo mandato.
Dilma Rousseff
Dilma fez uma gestão hierarquizada e centralizada, com perfil gerencial. Questionadora e com pouco diálogo, dedicou-se mais a tarefas burocráticas do que políticas. Seus governos deixaram como legados grandes investimentos em infraestrutura, em políticas sociais e em transparência e controle, com a aprovação de diversas leis nesse campo. Entretanto, por não saber ouvir e ter sido percebida como intervencionista na economia, foi rejeitada pelo mercado, pelo Parlamento e por parcela da sociedade, que fez manifestações contra seu governo (iniciadas nas jornadas de protestos de 2013), a ponto de o Congresso ter cassado seu segundo mandato, sob o frágil argumento de ter praticado pedalada fiscal.
Michel Temer
Temer fez uma gestão compartilhada e, graças a seu estilo conciliador e seu capital político de negociador, superou duas denúncias da Procuradoria da República. Sua postura pragmática, combinada com boa relação com o Congresso, fez com que conseguisse aprovar reformas consideradas impopulares, como o teto de gasto público, a reforma trabalhista e a terceirização, além da Lei das Estatais, apesar de seu pouco tempo na Presidência.
Jair Bolsonaro
Mais até do que Sarney e Itamar, Bolsonaro fez uma gestão delegada, porém completamente desarticulada. Seu capital político mobilizador e seu estilo confrontador, voltado para a luta política e perseguição de seus adversários, combinado com sua postura impulsiva e voluntarista, atiçou o ódio e impediu a formação de consenso no país. Populista de direita, foi essencialmente um governo de contradições e conflitos, que tinha uma base social antissistema e uma base parlamentar formada pela chamada “velha política”, que era contestada por seus apoiadores fundamentalistas. Sua “gestão” ficará mais conhecida pelo “desmonte” do Estado e pela divisão da sociedade do que por realizações. O seu discurso moralista, aos poucos, vai sendo desmontado pelos fatos que vêm sendo descobertos desde o final de seu governo envolvendo desperdício de recursos e até mesmo a apropriação de bens públicos.
Conclusão do artigo
Constata-se, com base na tabela e em sua descrição, que as características dos presidentes (modo de gerir, estilo de governar, capital político e postura) são determinantes não apenas para a perspectiva de poder, mas também para o cumprimento do mandato. Aqueles com postura pragmática (Sarney, Itamar, FHC, Lula e Michel Temer) concluíram seus mandatos e, quem disputou novo mandato, foi reeleito, enquanto os com estilo centralizador, concentrador e confrontador (Collor, Dilma e Bolsonaro) ou tiveram problemas em seus mandatos, inclusive com os dois primeiros sendo cassados, ou não renovaram seus mandatos, como o último.
Sobre o autor
Antônio Augusto de Queiroz é jornalista, analista e consultor político, mestre em Políticas Públicas e Governo pela FGV. Ex-diretor de Documentação do Diap, é autor dos livros Por Dentro do Governo: como funciona a máquina pública e RIG em três dimensões: trabalho parlamentar, defesa de interesse perante os poderes públicos e análise política e de conjuntura, e sócio-diretor das empresas “Consillium Soluções Institucionais e Governamentais” e “Diálogo Institucional Assessoria e Análise de Políticas Públicas”.



